
Deus Pai e Senhor Supremo
dos pobres que humilhados
imploraram o seu Santo Nome
como Pai dos desgraçados
vinde Senhor socorrei-nos
dos lobos esfaimados.
Olhai para nossos filhos
que muitos morrendo a fome
escravizados no eito
imploraram o vosso nome
vinde Deus eu vos suplico
como pai, se não o rico.
os nossos filhos consome.
Oh! Brasil eras um "éden"
há muitos anos atrás
mas os vis gananciosos
com a fúria dos chacais
truculentos no civismo
lançaram-te no abismo
d'onde jamais sairás.
Alertai Brasil querido
Pais riquíssimo e profundo
amparai os vossos filhos
que vosso solo é fecundo
forte, heróico e varonil
Brasil, Brasil meu Brasil
Brasil orgulho do mundo.
Olhai para o nosso povo
se não tudo se consome
a carestia é de mais
dinheiro só tem o nome
seu valor diminuindo
mercadoria subindo
e o pobre morrendo a fome.
O pobre morre a mingua
sem direito de viver
que seus direitos são estes
trabalhar e não comer
depois ser preso, apanhar
gemer com fome e chorar
passa nudez e morrer.
São estes os tristes direitos
que a pobreza abraça
rico é um carro novo
e muitas casas na "praça"
mulheres, terra e gado
um revólver pendurado
pra que mal ninguém lhe faça.
O rico comete um crime
mas não vai para a cadeia
tem um bom advogado
em liberdade passeia
o pobre toma uma cana
e por ação desumana
só falta morrer na peia.
Eu dizendo estas verdades
os homens inconscientes
poderão até matar-me
assim como Tiradentes
muito antes da república
foi morto em praça pública
com os seus inconfidentes.
Morrer como Tiradentes
como Felipe dos Santos
é morrer como um herói
e ente martírios tantos
morrendo deixo meu nome
os filhos sofrendo fome
chorando amargosos prantos.
Quem quiser prender-me prenda
quem quiser matar-me mate
quem se achar ofendido
tire-me a vida em resgate
dou-lhe esta liberdade
mas de falar a verdade
não há diabo que me empate.
Já estou velho e cansado
pouco me importa o viver
da morte tenho certeza
não posso me esconder
não corro e nem sou covarde
seja cedo ou seja tarde
sempre tenho que morrer.
A fome arrocha d'um lado
vem do outro a carestia
doença lasca no meio
de frente a demagogia
por cima a inconsciência
por traz roubo e violência
pilheria, dito e orgia.
E cada dia que passa
mais o flagelo se enrasca
os alimentos subindo
dinheiro a valor de "casca"
o rico gozando a vida
e o pobre é quem se lasca.
Pois o perverso incauto
não procura proteger
ao homem que trabalha
pra ver seu país crescer
mas tem mente voltada
machucar e dar pancada
em quem lhe dar de comer.
Do suor de quem trabalha
vivem os homens potentados
governos e presidentes
senadores, deputados
juizes e promotores
prefeitos, vereadores
comandantes e soldados.
E para que maltratar?
a que pra todos trabalha
pra lhes dar o pão da vida
um instante não se empalha
com fome, nu, sem morada.
vive o homem da enxada
comendo pouca migalha.
E a migalha não passa
de um caldo de feijão
que pobre não come arroz
talharim nem macarrão
queijo, carne, batatinha.
verdura, fruta, galinha.
pobre não ver isto não.
Pobre só come batata
pelo pulgão estragada
beiju entala-cachorro
macaxeira ensoada
sodoro, cará do mato
aruá, calango e rato.
bredo cozido e mais nada.
Outra classe sofredora
é o do povo operário
se aumenta 30 por cento
em seu mesquinho salário
mas aumenta 100 por cento
no que se diz alimento
daquele mais necessário.
Quem ganha o salário mínimo
inda come um peixe assado
ou camarão de açude
além de podre é salgado
num valor que desconheço
pra comer do mesmo preço
quem não ganha está lascado.
Onde estão os poderosos
será que eles não vejam
que sem termos agricultura
só misérias nos rastejam
por faltas de alimentos
e cegos de entendimentos
não acredito que estejam.
A Igreja esta nos manda
que devemos trabalhar
porque Deus não vendeu terra
e terra é de quem morar
não sei como se atreve
a ensinar fazer greve
para o pobre se lascar.
D'outro lado o sindicato
contra ao rico profana
joga o pobre sobre o rico
ação negra e desumana
fica o pobre em pé de guerra
o rico não arrenda a terra
e o pobre é quem se dana.
Se os governantes criassem
como homens de conceitos
uma lei arrendatária
mas com dividas e respeitos
e o rico arrendaria
e o pobre trabalharia
pagando-lhe os seus direitos.
E esta lei obrigatória
para o rico arrender
e dividir sua terra
uma parte pra criar
outra pra agricultura
e obrigar a criatura
que queira ou não trabalhar.
Porque hoje só o velho
bota pequeno roçado
se o rico for bondoso
mas o foro adiantado
vem a seca e atrapalha
quem é moço e não trabalha
que é velho está cansado.
Hoje que é moço e forte
só fala em se empregar
se alguém fala em roçado
ele é capaz de brigar
diz de cara enfarruscada
roçado não camarada
que enxada é um azar.
E outro diz que o rico
só fala em plantar capim
diz o rico: um morador
nem de ouro o quero enfim
a lei dá direito a ele
que invés d'eu mandar nele
ele é quem manda em mim.
Mas o capim cria o gado
pra nossa alimentação
couro para artesanatos
seu tudo tem distinção
com todo seu sacrifício
vive pouco e é propício
pra grandeza da nação.
Eu considero a vaca
como uma escravizada
nos dar filho, carne e couro
ganha capim e mais nada
e para melhor deleite
nos oferece o seu leite
manteiga, queijo e coalhada.
Precisamos de capim
para nossa criação
de terra para plantarmos
arroz, milho e feijão
precisamos de pobreza
de um Brasil de grandeza
porém de malandros não.
Ismael Freire da Silva, Guarabira